'O imprevisto que alimenta': como escrita e psicodrama quebram rotina em presídios e unidades socioeducativas

  • 03/05/2026
(Foto: Reprodução)
Psicólogo Pedro Oliveira em uma sessão de teatro terapêutico na P III, em Hortolândia Joey Daminelli O ambiente é majoritariamente cinza. Grades, aço, paredes descascadas e o som metálico de trincos que se fecham ditam o ritmo do dia a dia na Penitenciária III de Hortolândia (SP) e na Fundação Casa. É dentro desse cenário que o imprevisto surge como uma fresta de luz. “É tudo sempre igual, mas nesse grupo a gente tem um imprevisto e o imprevisto alimenta a gente”, relata um dos internos ao psicólogo Pedro Oliveira. Também educador popular e produtor cultural, Pedro sempre teve ligação com projetos culturais. Durante a formação acadêmica, ele realizou estágios nos sistemas penitenciário e socioeducativo e percebeu a importância de levar a arte para esses espaços. A partir dessa percepção, ele desenvolveu projetos para pessoas privadas de liberdade. Nasceu, então, o teatro terapêutico, feito na Penitenciária III de Hortolândia, e a Onírico Produtora, focada em projetos para jovens de escolas públicas e da Fundação Casa. “Quando eu vi que existe uma carência muito grande de acesso nesses espaços, eu comecei a entender a necessidade de movimentar e trazer arte, psicoterapia, educação e visibilidade de uma outra forma”, explica o psicólogo. Vídeos em alta no g1 Diálogo entre arte e psicologia O projeto Teatro Terapêutico foi criado em 2023, quando Pedro concluía a pós-graduação como psicodramatista. No início, houve desconfiança. "Os agentes penitenciários, a polícia penal, não entendem o que é o projeto, chamam de curso de teatro", conta. O objetivo é conduzir um grupo psicoterapêutico a partir do psicodrama, que ele define como "uma encruzilhada entre o teatro e a psicologia". Segundo Pedro, o psicodrama parte do princípio de que uma pessoa "adoece em relação e é curada em relação". O método promove o desenvolvimento por meio de relações saudáveis, criatividade e espontaneidade. O psicólogo detalha que a técnica usa improvisações cênicas para o desenvolvimento psicossocial dos indivíduos e do grupo. No começo, os participantes resistiram à ideia. Para quebrar essa barreira, Pedro introduziu outros elementos antes de chegar à improvisação cênica. "Eu trouxe a poesia primeiro, eu trouxe o rap primeiro, para que eles entendessem o que eu estava fazendo ali", explica. O psicólogo afirma que prioriza a criação de um vínculo forte com o grupo. A partir dessa conexão, ele introduz a linguagem teatral e permite que o próprio grupo direcione os caminhos do processo terapêutico. As turmas têm de 20 a 25 vagas. Com encontros semanais, o processo dura de quatro a cinco meses. Nos primeiros encontros, as atividades são mais direcionadas, mas, a partir do quinto, o grupo passa a propor os temas. "Eu já estou aberto ao que eles vão propor. 'Ah, sonhei com isso', vamos dramatizar seu sonho. 'Na minha visita, aconteceu isso', vamos dramatizar. 'Nossa, estava pensando nisso', vamos trazer para a cena", exemplifica Pedro. Psicólogo Pedro Oliveira em uma sessão de teatro terapêutico na P III, em Hortolândia Joey Daminelli Desafios e reflexões Pedro conta que, na renovação dos grupos, alguns participantes permanecem para atuar como "ego auxiliar", ajudando a engajar os novos membros. Questionado sobre os desafios, o psicólogo afirma que eles surgem no cotidiano. Um dos principais é a dificuldade de homens em interpretar papéis femininos. "Isso aparece em todos os grupos. E aí a gente começa a conversar o porquê disso. Onde está a raiz dessa dificuldade? Ela é histórica, ela é política também. Está embasada no machismo, na misoginia", analisa. Para ele, porém, é um desafio que vale a pena. Ele questiona se um grupo terapêutico no cárcere seria como "enxugar gelo", já que a prisão, por natureza, produz sofrimento psíquico. A resposta, segundo Pedro, está em uma psicologia crítica, que vai além de aliviar o sofrimento. O objetivo é "produzir consciência, para que o sujeito compreenda o que produziu aquelas escolhas que o levaram àquele contexto". Ele aponta que a falta de acesso à saúde, educação e cultura de qualidade é uma estrutura que dificulta que a pessoa privada de liberdade veja outras possibilidades além do crime. Participante interpretando em uma sessão do "Teatro Terapêutico" na P III, em Hortolândia. Joey Daminelli Máscaras como 'experiência de liberdade' As máscaras são um instrumento importante nas sessões. Pedro as utiliza "como um recurso para alcançar lugares que às vezes uma dramatização sem máscara não alcançaria". Ele explica que o rosto é o principal lugar de identidade de uma pessoa. Ao colocar uma máscara, o indivíduo se sente visto de outra forma. Isso, segundo o psicólogo, "produz no corpo e na pessoa uma experiência de liberdade, porque a pessoa se descola do lugar social dela e às vezes explora uma corporeidade que ela não exploraria sem a máscara". As máscaras são diversas, desde peças lisas até outras encomendadas a um artista plástico. As reações variam: alguns sentem medo, enquanto outros demonstram curiosidade. “Aquele contexto só tem cinza, só tem grade, só tem aço, parede; não tem arte lá dentro. Então, trazer essas máscaras para lá é uma porta para o mundo, uma forma de interagir, de ver uma forma de expressão artística”, comenta. Pedro Oliveira e um educando no projeto "Escrevivências Libertárias", na Fundação Casa, em Campinas Joey Daminelli Educação e arte como caminhos para a liberdade Com a experiência que acumulou, Pedro criou a Onírico Produtora em 2025. A ideia veio de trabalhos com educação popular, que acontecem na relação, na troca e na arte feita em grupo. Hoje, a produtora está em escolas e unidades da Fundação Casa. Um dos projetos é a Escola do Hip Hop, feita com apoio do Fundo de Incentivo Cultural de Campinas. A proposta é colocar o jovem no centro, em diálogo com a escola, incluindo professores, colegas, gestão e família. A partir do hip-hop, os adolescentes criam vínculos e constroem conhecimento. Outro é o Escrevivências Libertárias, financiado por leis de incentivo do Plano Nacional Aldir Blanc (PNAB municipal), uma oficina mais curta que junta a “escrevivência”, da Conceição Evaristo, com a educação popular do Paulo Freire. A ideia é que os adolescentes escrevam poesias próprias, falando de si e do mundo que veem. Para o psicólogo, educação, cultura e arte são caminhos para a liberdade. "E quando a gente fala de liberdade, não estamos falando necessariamente dessa liberdade física, mas de uma liberdade de ter consciência do próprio processo", explica. Ele afirma que levar esses projetos a esse público é uma forma de acessar pessoas historicamente marginalizadas. "É a minha luta, eu acredito que seja a minha luta e a minha missão. Eu acho que fazer isso para mim é o que eu sinto que eu tenho que fazer; se eu não fazer isso, perde o sentido, as coisas perdem o sentido”, conclui. Atividade com colagem realizada no projeto "Escrevivências Libertárias" na Fundação Casa, em Campinas Joey Daminelli Do hip-hop ao grafite A educadora Thata Oliveiros, que trabalha na área social há 15 anos e está na Onírico desde o início, vê nos elementos do hip-hop uma ferramenta de diálogo e debate com os jovens. “É uma maneira que a gente tem também de debater política e outras possibilidades de vivência, de como sobreviver, de ser criativo diante de questões que são impostas”, afirma. Segundo Thatha, a intenção da Escola do Hip-Hop é fazer com que os jovens vivenciem as quatro linguagens do movimento (rap, DJ, grafite e break), compartilhando habilidades. A ideia é "fazer junto com eles", em vez de apenas palestrar. "Teve unidades em que os adolescentes já faziam rima, então pudemos fazer uma minibatalha ou um sarau para eles se apresentarem", conta. Ela destaca que o grafite gera um "grande encantamento", principalmente por ser uma arte que vem da rua e por ser feito em locais de grande circulação, como a quadra onde recebem visitas. Para ela, arte e cultura deveriam ser política pública. "Onírico fala de sonhos, e Paulo Freire fala de sonhos possíveis. A junção é dar a eles a possibilidade de também terem sonhos possíveis. Há um apagamento da identidade desses meninos, que são pretos, periféricos, indígenas. A cultura ajuda a garantir o resgate dessa identidade", finaliza. Atividade com colagem realizada no projeto "Escrevivências Libertárias" na Fundação Casa, em Campinas Joey Daminelli 'Levar uma esperança e outra realidade' O fotógrafo Joey Daminelli, social media da Onírico, já acompanhou uma sessão do Teatro Terapêutico na penitenciária. Ele conta que se surpreendeu com a reação dos participantes. "Não sabia o quanto eles iam abraçar, mas vi como é importante, como eles gostam e como realmente faz a diferença." Já na Fundação Casa, a surpresa foi outra. “Às vezes você chega lá e são só crianças, adolescentes. Tem até um clima de escola, porque são muito novinhos. Toda hora vêm perguntar, vêm conversar.” “Estar com a câmera na mão era muito louco. Todo mundo vinha falar comigo, pedia pra ver, pra conhecer. Para eles é novidade, muitos nunca viram uma câmera", afirma. Ele se lembra de um adolescente de cerca de 17 anos que participou do projeto Escrevivências e não era alfabetizado. No começo, era preciso soletrar as palavras para ele. Com o tempo, o jovem passou a escrever textos inteiros sem precisar de ajuda. Para Joey, o trabalho é fundamental. "É importante a gente estar lá para levar uma esperança para eles, levar outro ponto de vista, outra realidade", afirma. " "O que para outro jovem é normal, como andar de skate, fazer grafite ou estar numa batalha de rima, para esse moleque pode ser a salvação dele", conclui o fotógrafo. Jovens durante atividade projeto "Escrevivências Libertárias" na Fundação Casa, em Campinas Joey Daminelli Novo mundo Para o diretor da unidade socioeducativa, Ciro Arlei Francisco, os jovens demonstram uma “carência”. Ele explica que, por causa da vulnerabilidade social e da alta evasão escolar, muitos não têm clareza sobre as consequências de seus atos. “A arte e a cultura apresentam a eles um outro mundo, que antes não conheciam. Como a evasão escolar é muito grande, eles acabam saindo um pouco da realidade que vivem lá fora”, comenta. Já a educadora Paola Montenegro conta que, no início, há um certo distanciamento por parte dos jovens, mas que essa barreira se rompe com o tempo. Ela se surpreendeu com a forma como eles passaram a se envolver com a escrita. "A gente estimula que eles levem esses poemas adiante, não só aqui dentro, mas para a vida. É o começo de liberdade pelas palavras", diz a educadora. *Estagiária sob supervisão de Gabriella Ramos e Fernando Evans. VÍDEOS: tudo sobre Campinas e região Veja mais notícias sobre a região no g1 Campinas

FONTE: https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/noticia/2026/05/03/o-imprevisto-que-alimenta-como-escrita-e-psicodrama-quebram-rotina-em-presidios-e-unidades-socioeducativas.ghtml


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